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terça-feira, 29 de julho de 2008

outra entrevistinha - segundo round

entrevista para vanessa oliveira, no campus mooca da universidade s. judas tadeu, em 12/06/2008, 2ª parte.

tem alguma escola que mais se destacou dentro das artes plásticas?
não, não tem uma escola, porque elas têm períodos. eu falei do impressionismo, agora há pouco. o impressionismo se destaca por ter, praticamente, criado a idéia de arte moderna. assim, o artista pôde dizer “olha, dá licença, eu comprei o pincel, a tinta e a tela; eu vou pintar o quadro do jeito que eu quiser, não preciso de doutores, não preciso de academia, não preciso de mestres pra me dizer como pintar; eu vou pintar aquilo que eu estou sentindo, se as pessoas gostarem eu sou um artista, se elas não gostarem eu não sou um artista”. eles estavam certos. as pessoas gostaram e eles são hoje consagrados.

mas, você tem muitas outras manifestações; você pega um movimento que surgiu lá em 1904, na frança, chamado fovismo.
(matisse, a dança)
esses caras ensinaram pra gente que o céu pode ser verde e a grama azul. por quê? porque, às vezes, a gente está de cabeça pra baixo, a gente tá vendo o mundo de cabeça pra baixo e, aí, eles mostram que as cores têm um significado psicológico mais do que realista. então, eles vão desenhar ou pintar uma mulher sensual com fortes tons de vermelho; “nossa, será que aquela mulher é tão vermelha assim”? não, é pra dar a idéia de sensualidade, pra dar pra gente a sensação de que aquela é uma mulher sensual.

aí, chega um outro artista e diz assim “não, eu acho que esse mundo está muito bagunçado, este mundo está de pernas pro ar, eu quero mostrar a idéia, eu quero transmitir a idéia de que o mundo precisa de ordem e simplicidade”. e você tem um artista como mondrian, por exemplo,
do neoplasticismo; ele vai usar só quadrados e retângulos nos seus quadros; só as cores preto, branco, cinza, azul, amarelo e vermelho. com essas seis possibilidades de cor ele constrói um universo de... de imagens.

ou, então, você pega um outro exemplo, ainda falando de artes plásticas, como o expressionismo, que vem dar uma sacudida nas pessoas. é como se pegasse o espectador pelos ombros e dissesse: “he-llo-ou! ei, acorda! você não está prestando atenção! esse mundo em que você está, está criando uma massa de miseráveis, que um dia vão perder a paciência e, nesse dia, você vai reclamar da violência!”. pois é, eles estão avisando isso desde 1910, com poesia, gravura, pintura, escultura, cinema, teatro de monte, literatura da melhor qualidade, filmes... filme dá pra você ir em locadora; vai lá, pega em sessão de clássicos, filmes expressionistas (como essa imagem de nosferatu, de murnau)
e você vai ver, nossa!, que coisa impactante! pois é, a gente tem elementos expressionistas espalhados pela arte até hoje, por que a arte ainda não cansou de avisar “um dia, a massa de miseráveis vai perder a paciência eu acho bom vocês prestarem a atenção”..

você acha que a arte como ela está hoje ela continua evolução?
hããã... sim. mas, a gente precisa tomar cuidado com uma coisa: achamos que evolução é sempre uma coisa positiva. caramba, eu vejo tantas pessoas dizendo “ah, avisaram que agora estava chegando o progresso aqui na nossa cidade e, veja só, agora tem poluição, tem barulho tem não sei o que; isso é progresso”? é, isso é progresso; eu não disse que era bom, eu disse que ia pra frente...

você perguntou se existe uma evolução. tem uma outra palavra pra isso, talvez seja melhor: um desenvolvimento. uma coisa está envolvida quando está enrolada em si mesma; quando ela se desenvolve, ela cresce em todo o seu potencial. isso não quer dizer que seja bom ou ruim, quer dizer que cresce, apenas. então, sim, a arte está sempre evoluindo, tem sempre um outro jeito de dizer alguma coisa. se esse outro jeito vai agradar a muita gente ou não é uma outra questão. e, também, a gente tem que lembrar que deixamos de ter um padrão único de arte; deixou de ter certo e errado em arte, o que abre espaço a tudo o que a total liberdade do artista pode criar, o artista é limitado apenas pela sua imaginação. que maravilha, sensacional etc. etc. ...

mas, é claro que pode chegar um picareta, também, e dizer: “olha, eu vou colocar esse copo d’água em cima da mesa, isso é minha obra de arte simbolizando o desperdício de água no planeta e as milhões de pessoas que tem sede”. você pode dizer “epa! mas, isso é uma picaretagem”!... e é, mesmo. só que você não vai proibir a picaretagem, porque corre o risco de proibir a idéia genial que você ainda não entendeu. então, liberdade pra todo mundo, sai criando e tal; mas... por exemplo, as pessoas chegam aos limites mais absurdos, muitas vezes com o intuito não de produzir a obra de arte mas, muitas vezes, só para chamar sobre si a mídia, chamar sobre si a atenção da imprensa e, com isso, aparecer bastante e tentar descolar um dinheiro com isso.

eu lembro do caso de um artista, eu sei que ele é latino-americano e ano passado (2007), se não me engano, ele teria criado uma instalação no país dele (não me lembro qual, no momento) para a qual ele pegou um vira-lata na rua, amarrou num determinado canto de uma exposição e deixou que o cachorro ficasse ali até morrer de fome e dizia que isso era pra denunciar a fome no mundo e tarará... pra mim, um jeito mais eficaz de fazer isso, seria ele mesmo se acorrentar e dizer “olha, eu vou ficar aqui até morrer de fome, a menos que alguém faça alguma coisa”. talvez, assim, ele estaria provocando uma atitude solidária, positiva, mesmo que desesperada das pessoas pra não deixarem o artista morrer de fome. eu tenho certeza de que ele não morreria de fome; mas, ele não comoveu ninguém e tem fotos das pessoas em volta do cachorro... hã... até o cachorro morrer de fome. há um abaixo assinado circulando pela internet (mas, a internet não é uma fonte muito confiável...) dizendo que esse “artista” virá ao brasil, participar da bienal aqui em são paulo e “vamos nos posicionar contra isso e tal”. isso já é um desconhecimento de como funciona não só a bienal, mas como funciona a lei na cidade de são paulo, aqui não pode ter circo com animais, não pode ter rodeio, porque existe lei que proíbe maus-tratos aos animais na cidade são paulo. então, essa...essa “instalação” do cara... essa cretinice, aí, não poderá acontecer em são paulo. mas, idiotas existem em vários lugares do mundo e ele poderá perpetrar isso em uma... uma nova empreitada. (tubí contínuedi)

Um comentário:

Bruna Malaquias disse...

Lindo este mundo artístico!
O blog está fabuloso, Warde!

Um abraço,

Bruna