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quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

parece tããão fácil...



fico impressionado como as pessoas nunca imaginam que um professor possa ter tido algum problema escolar. especialmente (hoje sei disso...) um professor de teatro.

ele sempre leu todos os livros, viu todos os espetáculos, ganhou todos os prêmios;
sempre foi protagonista, nunca teve um branco ou dor de barriga ou afonia;
nunca atrasou ou esqueceu ou teve um problema: seja doença (sua ou na família), desemprego, fome, sono, cansaço, dureza, desamor, depressão ou outro qualquer.
e sempre teve ótimos professores, que nunca erraram e sempre lhe deram todas as explicações requeridas e os papéis em que ele poderia render mais e que eram, exatamente – veja que coincidência! –, os que ele mais queria e gostava mesmo.
e, como sempre foi genial, forte e invencível, como conseqüência natural o teatro curvou-se a ele.

nada mais longe da verdade.

tudo o que aprendi foi que essa coisa de teatro é pesada e forte e dura e não dá agradinhos, nem poupa ninguém.
mexe com algumas coisas que doeriam menos se ficassem quietinhas, lá no fundo da gente. nos expõe além do que seria razoável a um ser humano normal. faz exigências às vezes cruéis, outras ridículas.
todo o tempo que eu tenho no teatro só serviu pra eu ter a mais profunda certeza de que nada nem ninguém nos prepara para o que o teatro poderá exigir da gente.
ele sempre parece encontrar uma provação maior que aquela para a qual nós nos aprontamos.
e a verdade - sem nenhum enfeite - é que no momento em que é dada a incumbência, alguns de nós dão conta, outros não. por maior que seja a vontade que todos tenhamos.
é que não era o momento; o tempo de preparo não fora atingido.
e a pessoa pode ter um ou dez ou trinta anos de teatro, não importa - às vezes conseguimos, às vezes não.

e - atenção, que isso é o que importa, mesmo, em teatro - sua capacidade não será medida pelo fato de ter conseguido algo da primeira vez, mas pela sua persistência em superar-se até conseguir.
até porque, sabemos todos, acertar de primeira, pode ter sido sorte - e o teatro não pode se dar ao luxo de contar com a sorte.

interrompo - não termino! - aqui a reflexão, feita para que você, leitor, tivesse uma idéia do que está por trás das coisas que penso, digo, faço e das decisões que tomo. sim, pois é preciso decidir coisas.
e assumir a decisão, justificá-la, sustentá-la diante de outros pontos de vista. confesso que seria muito, incrivelmente mais fácil tomar a decisão que me deixaria bem com todos, bonito aos olhos do mundo. mas meu compromisso, faz muito tempo, é com o teatro.

ele me deu tudo o que tenho; é preciso que eu o respeite.

voltarei ao assunto... sei lá... um dia.

(a foto é da montagem de fica comigo esta noite, de flávio de souza, direção de sérgio de azevedo e deste locutor que vos fala)

Um comentário:

Marcos Forte disse...

É profesor, infelizmente a sociedade não aceita que sejamos nós mesmos o tempo todo.

Quando agimos dessa forma, somos cobrados por acreditar em nossas verdades e raramente somos entendidos pelas outras pessoas.

Mas como diz uma amiga minha: A verdade é tão mais simples.


Abs,

Marcos Forte